terça-feira, 30 de novembro de 2010

Convite Fúnebre

Nada mais prazeroso que comemorar datas importantes junto de pessoas significativas para nossa existência.

Ao longo da nossa vida muitas são as comemorações, e cada uma delas agrega pessoas diferentes. Contudo, há um pequeno grupo, um núcleo de amigos que nos acompanham em quase todos os eventos que compõe a nossa história. Estes amigos, que a parceria ao longo do tempo os transforma em irmãos, constitui um bloco de pessoas que aprenderam a conviver com respeito e amor, apesar das suas diferenças.
Este núcleo não é restrito, pelo contrário, ele estará sempre aberto para quem goste de gente. Não é fechado, ele tem as portas abertas aos que enxergam os outros como seres livres. Este núcleo se abre a cada comemoração através de um convite, o qual denuncia o reconhecimento, no novo convidado, de características importantes para o grupo.
Cada comemoração exige uma criteriosa escolha para a formação da lista de convidados, objetivando que eles tenham alguma relação com o momento vivido, por exemplo: Convidamos para os nossos aniversários, amigos da vizinhança, da escola, da universidade, do trabalho, etc.; convidamos para o nosso casamento, familiares e amigos mais próximos; convidamos para o aniversário dos nossos filhos pequenos, casais com filhos da mesma idade, e assim por diante. Porém, há uma comemoração importantíssima e inadiável na qual quase não opinamos sobre sua programação ou número de participantes. Por isso, resolvi convidá-lo para minha festa de partida, afim de que ninguém entre como penetra ou tente ser o que não é, pelo fato do silêncio colaborar com a farsa.
Quero convidá-lo para o meu culto fúnebre e posterior sepultamento.
Para esta comemoração convido você, que ao longo da minha vida procurou me entender antes de me julgar. Convido você que, apesar de não concordar comigo, ouviu atentamente meus argumentos e contra-argumentos. Espero a presença daqueles que reconheceram meu valor quando eu ainda não tinha nenhum título antes do meu nome. Espero que só tomem a palavra aqueles que falaram bem de mim, quando eu ainda respirava. Conto com a presença daqueles que me fizeram uma crítica séria e cheia de amor olhando nos meus olhos, e não nos bastidores com a intenção de barrar meu crescimento. Convido para o meu funeral pessoas que realmente vão sentir a minha falta, porque conviveram, conversaram, sonharam, sorriram e choraram comigo. Pessoas que torceram e colaboraram para o meu crescimento.
Estão dispensados aqueles que nunca tiveram tempo para me visitar ou mesmo para ligar perguntando como eu estava. Não se sinta obrigado a ir, você que preferia minha ausência e distância; não precisa se expor, ao dizer que lamenta o ocorrido por simples etiqueta social. Não compareça para fazer número, aqueles que nunca ofereceram o ombro. Dispensados estão todos aqueles que se sentem aliviados com meu silêncio; não precisam vir para comprovar que nunca mais ouvirão minha voz dissonante ao expor o que penso. Por favor, não transforme o último dia do meu corpo entre os viventes em um espetáculo de hipocrisia. Respeite a dor dos poucos que sinceramente sofrerão com minha partida, e não faça desse momento um teatro ou uma passarela de egos auto-infláveis. Para mim, os números nunca foram mais importantes que a qualidade, não será neste momento final que abrirei mão deste conceito. Nada contra os grandes números se eles revelarem uma boa qualidade de vida.
Desde já, agradeço a presença dos amigos naquele momento que minha família precisará do ombro que usei, e duplamente agradecido aos que, respeitando meu pedido e sendo sinceros consigo, perceberem que não devem comparecer ao último dia de alguém que você sempre desejou vê-lo longe.
Registrado meu convite, aguardo o chamado do meu Senhor Jesus para quando Ele achar por bem me levar.

È bom que se diga que NÃO TENHO PRESSA (kkkk).