quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sobre Verdade

Ainda sobre Verdade
(Texto escrito 13/03/04, mas parece que nada mudou).

“Oh! Meus irmãos, quem representa o maior perigo de todos para o futuro do homem?Não são, porventura, os bons e os justos?Pois eles dizem e sentem em seus corações: ‘Nós sabemos o que é bom e justo, e nós já o possuímos; aí daqueles que, entre nós, ainda procuram’”.
(Nietzsche. Assim falou Zaratrustra)

Na reflexão de hoje trago alguns trechos do livro “Variações sobre a Vida e a Morte” (Ed.Paulinas – pg. 117 - 121) escrito por Rubem Alves, que nos fará lembrar que toda história, apesar de construida por fatos ocorridos no tempo, produz versões diversas, a partir do ponto de vista de cada envolvido na questão. Espero que estas pequenas porções produzam novas ideias, e tornem-se sementes de novas falas.

Com a palavra, Rubem Alves:
“...eu posso fazer com que as palavras signifiquem qualquer coisa. A semântica se reduz à política. O que importa é quem é o senhor. Em outras palavras: o sentido é decidido por aquele que tem o poder de bater na mesa e dizer: ‘Está encerrada a discussão’. O senhor é aquele que tem a última palavra. E a última palavra não é um ato de significar, mas um ato de poder.
...Verdadeira são as palavras do forte. Os fortes fazem com que seu discurso seja aceito como verdadeiro... Os fortes falam, não para dizer a verdade (ou seja, explicitar significados - grifo meu), mas para impor sua força. Chamar seu discurso de verdadeiro, é uma forma de legitimar seu exercício de poder. A semântica esta à serviço da política, o saber subordina-se ao poder.”

Faz pouco tempo que os historiadores se deram conta de que a história é sempre interpretada e escrita pelos vitoriosos, e que, neste processo, os derrotados são sempre silenciados. O fato de terem sido derrotados faz com que eles sejam alinhados à mentira.
Contudo, uma questão se impõe: Onde está a história da heresia contada pelos hereges? Os hereges foram mortos, não podem falar. Seus escritos foram queimados e proibidos. Quem os classificou de hereges? Se eles foram capazes de enfrentar a fogueira sem se retratar não será porque eles se julgavam possuidores de uma verdade que dava sentido à sua vida e/ou morte? Eles nunca se consideraram hereges, pelo contrário, estavam convencidos de que os que estavam no erro eram aqueles que os queimavam. Mas os queimados não tinham poder, e, por isso mesmo, os mais fortes puderam defini-los como hereges e puderam definir-se, a si mesmos, como ortodoxos.
É necessário lembrar que as Escrituras Sagradas é um documento de derrotados; escravos; nômades no deserto; oprimidos; dos profetas que falaram em nome dos que não tinham voz; registro dos que foram perseguidos e mortos; exilados em terra estranha, à espera de um Rei forte. Contudo, Deus enviou um que nasceu entre animais, andou sempre em companhia dos mal-cheirosos morais e físicos, prostitutas, adúlteras, publicanos e leprosos. Um líder que acabou sendo executado como herege religioso e herege político, blasfemo e subversivo. “Os documentos dos derrotados são sempre definidos como loucura. ...na companhia dos fracos o que se encontra é a loucura, e a heresia...”

Se é verdade que a sabedoria de Deus se aninha, preferencialmente, dentro dos arraias dos fracos (Mt 11:25), temos aí uma preferência pela heresia; lembrando que o conceito de heresia aqui apresentado é a verdade daqueles que não têm poder. Sendo assim, é necessário ouvir as histórias dos derrotados, contadas por eles mesmos, não interpretada pelos detentores do status quo.
A verdade, nesta dimensão que vivemos, sempre estará distribuída nas diversas versões da mesma história. Verdades parciais, contadas por pessoas incapazes de serem imparciais pelo simples fato de serem humanas, limitadas, consequentemente, passionais, motivadas, consciente ou inconscientemente, pelos seus desejos, valores e crenças. Por isso, seja na ciência ou na moral, a verdade será sempre parcial e provisória até que, segundo o apóstolo Paulo, chegue o dia em que veremos face a face (I cor 13:12).
Pr Paulo Carlos.